Por que eles tem que crescer?

22 set
Por que eles tem que crescer?

“É que crescer custa um tanto de paciência. Na verdade, bem muita. Chega um momento que até nossas contradições são coerentes”.

(Vanessa Leonard)

Crescer exige mesmo paciência. Paciência para ensinar, estimular, acompanhar, preparar-se para o próximo passo. Mas não é “só” isso. Exige também respeito ao ritmo e tempo de cada um. Exige parceria, porque é preciso estar junto; é preciso crescer junto.

Na medida em que ensinamos e estimulamos uma criança, aprendemos outro monte de coisas com ela e somos estimulados também a crescer e desenvolver. Quando uma criança completa quatro anos, seus pais tem que crescer junto para aprenderem a ser pai/mãe daquela menina de (agora) quatro anos. O aprendizado e crescimento são constantes nessa longa caminhada tão mágica quanto desafiadora!

Crescer implica a cada dia ter mais autonomia para ir em frente, fazer, pensar, escolher, decidir, ser. E esse caminho só é possível quando se acredita nas possibilidades (nossas e da criança) para tal. Mas nem sempre é fácil como parece.

Muitos pais têm dificuldades de perceber, reconhecer e aceitar o crescimento dos filhos e investem na ideia de que terão maior segurança estando sob suas asas, protegendo-os de encarar a vida a partir de suas próprias experiências e vivências. E aí tomam a iniciativa de tudo. Começam a fazer PELA criança, em vez de fazer COM a criança ou de orientá-la e supervisioná-la. Fecham os olhos para os sinais que os pequenos dão de que já podem dar o próximo passo. E a criança começa a crescer amarrada. Com freio de mão puxado.

Tudo isso atende a uma necessidade que não é da criança, mas dos próprios pais. O medo de que a criança cresça é deles. Medo de perder o controle, talvez. Ou de ‘daqui a pouco’ não ter mais a sensação tão gostosa de estar com o pequeno no colo. Medo do desconhecido – daquilo para o qual se tem milhões de perguntas e nenhuma resposta pronta, mas que precisa ser vivido.

Veja bem, a ideia não é pisar no acelerador. Do ponto de vista emocional, isto também não é saudável. O que propomos aqui é que possamos caminhar de forma respeitosa, paciente e disponível para ensiná-los e estimulá-los nesse crescimento, não esquecendo de estarmos atentos aos sinais dos pequenos (que vêm através de falas, comportamentos, expressões corporais…), para que consigamos nos atualizar junto com eles. Por vezes, eles mesmos tiram a fralda sozinhos ou pedem para fazer xixi igual ao papai. Ou querem experimentar tomar banho sozinhos. Pode ser que não queiram acordar para tomar o gagau da madrugada. Ou tentem amarrar o próprio tênis, do jeito deles mesmo. E se não ouvirmos as nossas crianças e não tivermos uma postura permissiva para que isso aconteça e se desenrole, podemos dificultar esse processo natural e necessário.

É verdade que poucas coisas são tão gostosas quanto ter os filhos no colo e ser “tudo” na vida de alguém. Mas tão prazeroso quanto isso é perceber que se conseguiu prepara-los para enfrentar o que vem pela frente. No curso natural (e saudável) do desenvolvimento, as crianças vão crescendo, enriquecendo sua vida com experiências próprias, fazem amizades, criam novas referências (e mantêm algumas antigas), fazem suas próprias escolhas e assim vão se descobrindo e tecendo a vida. Nesse caminho, outras coisas e pessoas vão se tornando especiais e os pais vão deixando de ser o “tudo”, mas nunca de ser muito, muito importantes! E essa é uma demonstração que a vida lhes dá de que foram no caminho certo. Funcionou, porque eles aprenderam a construir o que é deles. E os pais podem, de outra forma, continuar juntos, parceiros na vida.

Quando os sinais aparecem, a gente precisa ser veículo para ajudar a conduzir ao próximo passo. Precisa dar sinal verde para a vida acontecer naturalmente. Precisa crer. E deixar ser. Para poder crescer.

Marina Bezerra Férrer

Psicóloga clínica e integrante do @nucleocriad

 

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