Vamos conversar sobre sexualidade?

sexualidade_infantilQuem nunca se sentiu desconfortável diante de uma criança que faz uma pergunta envolvendo o tema da sexualidade? É muito comum que pais, mães e cuidadores sintam-se desconsertados, em uma “saia justa” diante dessas situações. Isso se dá, muitas vezes, porque nós, adultos, viemos de gerações em que não se falava muito no assunto e, embora tenhamos o intuito de que nossas crianças sejam mais bem preparadas do que fomos e vivam a sexualidade de forma mais consciente, acabamos encarando esse tema como algo impuro, um bicho de sete cabeças. Além disso, por serem vistas como ingênuas e inocentes, costumamos atribuir às crianças também o status equivocado de indivíduos ‘sem sexualidade’ – o que pode, diga-se de passagem, reforçar a falsa idéia de que quanto mais tarde se falar no assunto, mais se conseguirá adiar o interesse por ele e, conseqüentemente, pelo próprio ato sexual.

Mas, ao contrário do que se pensa, a sexualidade está presente em tudo o que fazemos: seja em uma massagem relaxante, no sabor de uma comida, em um beijo ou um abraço; tudo o que se refere ao prazer com o corpo diz respeito à sexualidade. Ela tem início nas nossas primeiras experiências de vida, com a amamentação e com a descoberta do próprio corpo, por exemplo – as crianças sentem prazer em serem acariciadas, em serem tocadas – e se faz presente em todas as outras. A sexualidade é uma experiência constante e inerente a todas as pessoas.

Compreender isso é essencial para que possamos refletir acerca da educação sexual, que também acontece o tempo todo. “Mas como assim o tempo todo?”, você deve estar se perguntando. Veja bem: a maneira como você se relaciona com o assunto já é uma forma de educar sobre a sexualidade. Quando você escolhe não falar nesse tema, você está “dizendo” o que pensa sobre isso. Se seu filho lhe faz uma pergunta e você manda ele ‘parar de falar nisso, porque isso é coisa feia’, certamente você está dando um tom de proibição ao assunto [e à curiosidade dele!]. A forma como você se relaciona com o assunto, o tratamento que você dá ao seu marido e às crianças, a maneira como você trata as pessoas e as coisas, o modo como você lida com o seu próprio corpo e ensina o seu filho a cuidar do corpo dele, tudo isso é educação sexual.

Ou seja: a educação sexual acontece ao mesmo tempo em que se educa acerca de todos os outros temas. Ela diz respeito à transmissão de valores, à experiência de vida que os adultos transmitem às crianças. Portanto, a sexualidade vai necessariamente estar presente durante todo o desenvolvimento. Então, como não falar sobre isso com as crianças? Por que não? Elas estão conhecendo o mundo e é natural que se vejam cheias de dúvidas e curiosidades. Logo, informá-las e orientá-las acerca dos mais diversos temas é de extrema importância.

É interessante que possamos ter uma noção do que elas já sabem sobre aquilo que estão questionando e isso pode ser perguntado a elas (“O que você sabe sobre isso? Me conta!”). Muitas vezes, ao nos depararmos com determinadas perguntas, olhamos para elas considerando a nossa experiência de vida com o assunto e acabamos enchendo a nossa resposta de informações que estão muito além do que a criança espera receber. As respostas precisam ser simples, claras e acessíveis; não é necessário responder mais do que o que foi perguntado.

E se, por acaso, você não se sentir preparado para responder a uma dessas perguntas, por que não compartilhar isso com a criança? “Filho, eu preciso pensar um pouco sobre isso para te responder. A gente pode conversar depois?”. O mais importante é ser verdadeiro e poder tratar do assunto com naturalidade, porque isso faz parte do desenvolvimento natural da criança, faz parte da vida.

Num mundo em que o acesso à informação é tão fácil (e pode ser tão perigoso!), é muito bom que as crianças possam sentir-se à vontade para nos fazer perguntas, pois assim esses primeiros questionamentos são feitos sob a supervisão de um adulto e não através de pesquisas na internet, por exemplo. Precisamos olhar para isso como algo esperado, natural. Portanto, se colocar disponível para conversar sobre, estar aberto para que manifestem suas dúvidas, falar de intimidade (é essencial orientar as crianças acerca do que é público e do que é íntimo!), de limites, tudo isso certamente ajudará a criança a lidar de forma mais saudável com as questões relacionadas à sexualidade e a compreender que poderá sempre contar com você para esclarecer suas dúvidas.

ESCRITO POR:  Marina Férrer – Psicóloga Clínica  CRP: 17/1960   –  marina@nucleocriad.com.br

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